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O ATO FALHO DO PRESIDENTE

De Bolsonaro à Schützenfest, o tiro saiu pela culatra

Acervo Online | Brasil

por José Isaías Venera

6 de maio de 2022

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“Temos um chefe do Executivo que mente.” O sujeito não faz somente uso da linguagem, ele se faz na linguagem

A verdade é uma mensagem endereçada ao próprio enunciador. “Penso onde não sou.” A inversão de Jacques Lacan à máxima de René Descartes – Penso, logo existo – mostra o caminho da verdade do sujeito do inconsciente. A verdade não pode ser toda dita; ela aparece quando o sujeito da razão falha. E o melhor exemplo veio, no dia 27 de abril, em um discurso do presidente Jair Bolsonaro a deputados, transmitido pelo canal TV Brasil. Durante a fala, o presidente atrapalha-se e diz que o Executivo mente. Um ato falho. Um tiro que saiu pela culatra. Se a enunciação estava endereçada ao Judiciário, aquilo que veio como falha – ou seja, aquilo que escapou ao filtro da consciência – é o sentido que aponta para a verdade do sujeito.

“Temos um chefe do Executivo que mente.” Autodeclaração por engano. É o próprio sujeito da enunciação, o presidente, que mente. O paradoxo do enunciado “mente” é o de ser verdadeiro. A verdade não pode ser toda dita, mas a parte dela que é simbolizada não pode estar fora do discurso. Ela se materializa no próprio discurso. E, na cena presidencial, a mentira é a verdade que o sujeito da consciência tenta encobrir no gesto de atribuir ao outro, o Judiciário, aquilo que ele próprio faz. Mas ela, a verdade, se mostra, como vimos, naquilo que falha.

Se a mensagem era para o ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF), na falha, ela se revela endereçada ao próprio presidente. O discurso não é transparente. Interditado pelo Outro (a teia discursiva que o constitui), Bolsonaro tem a intenção de afirmar que o ministro do STF mente. Mas o sujeito não faz somente uso da linguagem, ele se faz na linguagem. Quando o presidente afirma que é o chefe do poder Executivo que mente, a mensagem dita sai como falha, já que, nesse caso, o discurso se mostrou transparente – de si para si mesmo.

Ao falhar a interdição, fica evidente que aquilo que é dito não é para um suposto referente (o ministro), mas para o próprio sujeito do discurso. Quando essa interdição fica exposta – “erroneamente” o discurso foi transparente –, o véu da realidade se rasga, e aquilo que falha se mostra assustadoramente verdadeiro.

de bolsonaro
(Créditos: Sérgio Lima/Agência Brasil)

O espectador na mira do cano das armas da Schützenfest

O ex-deputado federal Jean Wyllys, na quarta-feira, 27 de abril, via Twitter, relacionou a estética nazista com a representação ilustrada no cartaz da Schützenfest – festa típica de tiro ao alvo da cidade de Jaraguá do Sul, em Santa Catarina –, provocando o maior frenesi nas redes sociais, além de declarações acirradas de políticos locais da região.

De um lado, há a generalização. A memória familiar de muitos descendentes de alemães é atravessada por antepassados vitimados por regimes totalitários e pela miséria extrema. A generalização impede de ver tempos e contextos diferentes desde o início do processo de colonização, no século XIX, antes ainda da unificação da Alemanha, em 1871. A relação entre descendentes ou mesmo alemães com a adesão à ideologia de pureza racial não pode ser direta, caso contrário haveria uma biologização do mal. Por outro lado, o Brasil já contou com a maior agremiação nazista fora da Alemanha; depois da ascensão do nazismo, cerca de 3 mil pessoas no Brasil se filiaram ao partido. Não podemos também desconsiderar essa ambiguidade, assim como as células neonazistas que se formam com a presença de muitos integrantes sem nenhuma relação de descendência com a Alemanha. Um caminho interpretativo para abordar essa busca insana por pureza vem da insuportabilidade de existir sem uma identidade unificada.

A generalização de Wyllys aponta para o contexto nacional em que paira um conservadorismo de extrema-direita, cujo sentido valoriza a suposta superioridade do branco, macho, empreendedor, cristão. Essa cultura tosca fomenta representações de que é preciso se armar para defender valores tradicionais – e, com eles, o mito da pureza. Qual é a melhor ilustração para representar esses valores? Em outro contexto, o cartaz seria apenas mais um entre outros produzidos em anos anteriores.

No outro lado do burburinho, a maneira como foi interpretada a fala do ex-deputado reforça a sua própria generalização, quando, por exemplo, o ex-prefeito da cidade de Jaraguá do Sul, Antídio Lunelli, em vídeo, pede para Wyllys trabalhar e o chama de “papa merda”. Ao sugerir que o outro, forasteiro, estranho, coma merda, o ex-prefeito acaba por igualá-lo ao que há de mais desprezível na produção humana, seus próprios dejetos. Para Joseph Goebbels, ministro da Propaganda (1933-1945) de Adolf Hitler, “o judeu é um dejeto”. O judeu aqui funciona/opera como significante que pode ser substituído por todos aqueles que são colocados numa posição de impuro – como diria Cazuza, na música O tempo não para, “te chamam de ladrão, bicha, maconheiro”, mas também de preto, travesti, louco, deficiente etc.

A questão é saber por que expressões como “papa merda” são reproduzidas sem que o enunciador tenha consciência de suas conexões? Nesse enrosco com o cartaz, o que é dito tem uma ponta de verdade, já que o sentido do que é enunciado diz muito mais do próprio enunciador. O curioso é que, no contra-ataque do ex-prefeito, a resposta acaba confirmando a posição de Wyllys.

E daí, quando as posições são materializadas no discurso, resta mesmo olhar bem para o cartaz e perceber que os canos das armas não estão apontados para o tiro ao alvo – quase não o vemos –; mas elas (as armas) estão direcionadas para ‘nós’, espectadores. Podemos ainda fracionar este ‘nós’, já que um dos personagens da ilustração, com indumentária militar, direciona o seu olhar para a posição central do espectador. Há um deslocamento entre o encontro dos olhares – do personagem e do espectador – e a direção da arma. Ficamos com a impressão de que a arma aponta para alguém das redondezas do público-alvo da festa, certamente o inimigo. “Nós”, os impuros, somos o verdadeiro alvo.

Um cartaz é um signo cujo significado não está na imagem em si (como nós que não estamos no cartaz), mas no contexto (nos inserimos quando olhamos para os canos das armas). Qual é o contexto em que Wyllys está inscrito, assim como o ex-prefeito? Sob qual céu ambos coexistem? Antes de se eleger presidente do Brasil, em 2018, Bolsonaro simulou um fuzilamento em Rio Branco, no Acre, quando gritou: “vamos fuzilar a petralhada”. É verdade que a ponte entre o signo e a significação é construída por todos nós, gerando um movimento alucinante de sentidos. Quanto às armas simuladas, talvez o tiro saia pela culatra.

(Imagem: Reprodução/Twitter, disponível em: https://twitter.com/jeanwyllys_real/status/1519375212009111552?s=20&t=HN6ZkC4FVkvpdgj6cDu2aA)

José Isaías Venera é jornalista e professor da Univille e Univali.

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